21 de janeiro de 2008


O MUNDO É UMA CONSTRUÇÃO
Se houvesse frase que explicasse bem a forma como a academia portuguesa e, consequentemente, o pensamento dos seus teóricos que ocupam regularmente os lugares de decisão do país,seria esta, publicada numa coluna de opinião do Expresso:
""Não se pretende aqui discutir se esta medida é correcta ou justa, mas apenas perceber quais os argumentos que a poderão ter sustentado". Este professor da Universidade Católica (presumo, pelo título da coluna...)resume o pensamento português: não nos interessa a realidade mas a elaboração teórica sobre ela.
É este pensamento que conduz às decisões dos tribunais, à inutilidade do ensino universitário e ao fecho a tudo o que toque a vida em concreto, ou às tomadas de posição pública de vários sectores da sociedade.
Daí que o conceito de Justiça seja isso mesmo, um conceito. Para escrever sobre, palrar sobre, mas nunca para fazer nada pela sua imposição.
De onde concluo que o meu país não existe. O que existe é um boletim universitário chamado "Portugal".

17 de janeiro de 2008

JORNAL DO INCRÍVEL

O FANTASPORTO continua a esmagar-nos a todos com a sua capacidade de imaginar o presente. Além de ir apresentar um número de filmes quase igual a todos os que receberam, consegue ainda a proeza de exibir 87 (oitenta e sete) filmes portugueses. Ora sabendo nós que a produção de longas em Portugal é de cerca de 5 a 7 longas anuais e que as curtas (boas, más e inenarráveis) não excedem 30 ou 40, concluímos ir assistir a um acontecimento semelhante à Dança do Sol, de 1917.
Claro que se houver fiscalização do ICA, pode acontecer algo semelhante ao que se passou o ano passado com a bilheteira, onde o meio milhão de bilhetes anunciados baixou (borlas incluídas, muitas) para menos de 30 mil.
O seu director já perguntou publicamente por que razão não lhe dá o Estado ainda mais dinheiro para montar stands em Cannes e pagar anúncios inúteis e milionários na Variety a autoproclamar-se "O maior festival português".
O que se pode dizer perante todo este delírio?
Fantástico, seria o mínimo...
COISAS DA ROMÉNIA

Este é um dos países com um cinema mais possante, no momento. Para isso contribuem as suas escolas e a prática de filmar em 35mm, aliadas a uma atracção pelo cinema do real (por assim dizer).
Houve um filme divertidíssimo, feito há alguns anos, que mostrava o equívoco que é a caridade com os países "desfavorecidos". Falo do delicioso, "Ajuda Humanitária".
O seu realizador, entretanto, dedicou-se à música e criou esta banda de Nightlosers:

11 de janeiro de 2008

AVIOES E COISAS ASSIM

Nunca se sabe o que nos aterra em cima.
Há dias em que levantamos voo contentes. Pensamos em passados felizes e em dias futuros. E é precisamente quando estamos parados na rua, a sentir as pessoas e o que o mundo parece ser que o peso da aeronave nos cai em cima.
Só por sermos humanos é que do chão ainda conseguimos ver uma nesga de céu.
Só por isso.

7 de janeiro de 2008

QUESTÕES METODOLÓGICAS

"O Supremo Tribunal de Justiça dos Estados Unidos analisa hoje a legalidade da injecção letal, o meio de aplicação da pena de morte mais usado no paíS" in PÚBLICO

Parece que alguns membros do referido tribunal, na última festa em casa de Bush, terão chegado à conclusão que a coisa saía mais barata com tacos de basebol. Outros discordam, referindo que com o que se gasta em produtos de limpeza, vai a dar ela por ela.
Vamos lá a ver como é que vão passar a despachar os negros americanos daqui para a frente.

6 de janeiro de 2008

NA MORTE DE LUIZ PACHECO

Não li muito deste autor. Mas o suficiente para perceber que a fronteira entre a franqueza e a loucura era ténue. E ainda bem. Neste país de lesmas hipócritas, que somos todos, de uma maneira ou de outra, toda a voz que chame às coisas os nomes simples que elas têm, faz falta.

ps: apesar de lamentavelmente realizado, o documentário sobre o escritor que passou ontem na RTP2 permitiu entrever um pouco do espírito de Luiz Pacheco. Enquanto nos ríamos da sua ousadia tão fora do nosso tempo, batia-nos a melancolia de perceber que estamos definitivamente ancorados nesta praia.

3 de janeiro de 2008

O AGARRADITO

Foi patético o espectáculo que o Miguel S. Tavares deu de si, ontem à noite, na TVI.
Não que fosse surpreendente.
Mas ver uma pessoa inteligente e capaz de analisar bem tantas coisas que acontecem no país, tentar convencer os espectadores a boicotarem os seus restaurantes favoritos para pressionar uma alteração da lei, foi triste. E só reforça a ideia que toda a toxicodependência, por mais aceite socialmente que seja, não passa disso mesmo: uma droga que impede o raciocínio dos melhores.
O cartoon do jornalista e do Vasco Pulido Valente,no Inimigo Público da semana passada foi de génio.
HIPOCRISIA MORTAL

Há anos que chamo a atenção para o assunto,a imprensa, parte dela, acordou agora: o número apresentado de vítimas mortais em acidentes de estrada não corresponde à verdade. É apenas o número de pessoas que morre no local do acidente, registado pela GNR. Falta a este valor o das estradas controladas pela PSP. E, mais importante, as pessoas feridas gravemente que não resiste aos ferimentos. Se juntarmos estes valores, os números sobem para o triplo (rondará quase 3000 mortes anuais).
Então porque insistem a GNR, o Governo e as televisões a propagandear um número menor?
Os últimos por estupidez, por preguiça e por termos uma imprensa que se tornou acéfala, uma correia de transmissão dos vários poderes.
Os dois primeiros porque necessitam de justificar o cumprimento de um objectivo: reduzir o número de vítimas mortais. Como isso não se verificou, preferem "perspectivar" os números.
Se não fosse revoltante, esta manipulação, diria que é simplesmente triste.

2 de janeiro de 2008

SERVIÇO PÚBLICO

Parece que o novo acordo ortográfico já chegou à RTP. Pelo menos à N.
Leiam e se quiserem dEstribuam.

29 de dezembro de 2007

2008...

Por estes dias escreve-se pouco nos blogues. Neste blogue. Só me ocorrem coisas um bocadinho patéticas sobre a triste realidade nacional. O que não vale mesmo a pena.
Por isso, a menos que me lembre de alguma coisa realmente positiva, aproveito para desejar aos amigos, leitores e visitantes do blogue, um bom ano. Cheio de coragem. E se houver ainda mais coragem, de abertura aos outros e de dávida.

24 de dezembro de 2007

MERRY CHRISTMAS BIG BROTHER

Numa altura em que os jornalistas andam histéricos porque a partir do início do ano a lei os vai proibir de poluir os restaurante a bel-prazer, nenhum deles estranha uma outra alteração de consequências imprevisíveis. A partir de 1 de Janeiro as companhias de telecomunicações vão guardar e pôr à disposição de quem as souber recolher, as informações sobre as nossas comunicações e navegação pela internet. Num país dominado pela pequena corrupção de polícias, funcionários de tribunal e "serviços de informação" a soldo dos governos, não parece chatear ninguém que esta gente toda possa vasculhar no mais ínfimo dos nossos movimentos. A coberto da terrível necessidade de nos salvar de terroristas e de criminosos de toda a espécie, vai ser possível saber tudo: com quem falámos, durante quanto tempo, se visitámos o site dos amigos do Zoológico ou o Bigbreasts.com. Tudo. Claro que a lei "protege" o cidadão, baseado sobretudo na ideia que "quem não deve, não teme". Mas quando sabemos que milhares de pessoas já estão debaixo de escuta sem qualquer ordem judicial, que aqueles que recebem um salário para nos proteger ganham a vida a vender aos jornais as conversas das estrelitas do jet-set; os mesmos que fazem manifestações com cartazes com a figura do primeiro-ministro e a frase "Filho da Puta Mentiroso", teme-se o pior. O problema nunca é a bondade de uma lei, mas sim o uso que milhares de parasitas aguardam para lhe dar.
Isso, jornalistas, chateiem-se com o fim da tabacaria, quando os mais conhecidos de entre vocês virem os nomes escarrapachados nas publicações da concorrência debaixo de insinuações iníquas, vão perceber do que estou a falar.
Mas que digo eu? Algum deles lê isto? Não, está tudo a ler as publicações norte-americanas, a cena "trend", a meditar sobre a última atoarda de Santana Lopes, o-do-cabelo-lambido-por-um-cão.
Abrir os olhos para quê, quando se está tão habituado a correr à volta da cauda?

20 de dezembro de 2007

MAIS UM PINHEIRO

Para alguns ainda será cedo, mas para quem decorou hoje a árvore, é tempo de desejar a todos os amigos que por aqui passam, um Bom Natal.

14 de dezembro de 2007


FOI UM TRATADO!
(Como diria o meu pai quando quer ser sarcástico) Ia eu a entrar para o Metro, ou melhor, a tirar o bilhetinho de 75 cts, quando um senhor me murmurou qualquer coisa que não percebi. Paguei, a máquina larga o papelinho, mas antes que eu pudesse cometer um acto irreparável, um emigrante africano segura-me no braço, com ar feliz, e elucida-me: "Hoje é tudo de graça!" E era.Para comemorar o almoço no museu dos coches, a empresa pública abriu as portas "aos estimados clientes".
Vá lá que este mês não tinha comprado passe.

13 de dezembro de 2007

A CANETA DE PRATA

Os jornais televisivos destacam todos o essencial: o Tratado de Lisboa vai ser assinado com caneta de prata.
Parece que os nórdicos não estavam de acordo nem com a ideia de se usar uma de madeira exótica da Amazónia, nem com uma em plástico produzida na China por criancinhas a cantar o Hino à Alegria.
Teve mesmo de se usar uma de prata extraída por trabalhadores miseráveis em lugar indetectável da América do Sul.

10 de dezembro de 2007

O DISCURSO DE DORIS LESSING

Li no Le Monde, o discurso da Nobel da Literatura deste ano, Doris Lessing. Ao contrário de outros que nos encheram os ouvidos sobre a surpresa de ter chegado tão alto quando a vida parecia tê-los condenado em pequeninos à miséria, esta escritora mostrou-nos através de um texto comovedor como os anos a fizeram aproximar dos mais silenciosos. Dos que menos podem. E, sobretudo, da compreensão serena do mundo.
Alerta-nos para os perigos da iliteracia, mas também para a esperança naqueles que menos prezamos, e que passam fome na Índia ou no Zimbábue."Não sabemos como esta revolução (a Internet, os livros que não são lidos na sociedade excedentária em que vivemos) vai terminar.
A mim comove-me este murmúrio suave e poderoso. No meio do ruído que tantos tomam como sucesso.
Aqui, o discurso na íntegra e em versão original.


9 de dezembro de 2007

PERE LACHAISE

Por contingências de hotel e de um jantar com uma conhecida, lá fui visitar o túmulo do Jim Morrison, pejado de flores e garrafas de JB. De caminho avistei o do Oscar Wilde, coberto de grafites apaixonados ou da gratidão de muitos.
Mas o que me impressionou mais foi o silêncio e o esquecimento diante dos túmulos de banqueiros e escritores da Academie. Toda a vangloria que os perfumou em vida tinha desaparecido. Eram apenas pedras, cobertas de micro-organismos. Nada para quem passava como eu.

8 de dezembro de 2007

HOJE

...chovia e fazia um frio bestial em Paris.
Mas continuo a pensar que não me importaria de viver aqui.
Coisas...

6 de dezembro de 2007

WELCOME TO LISBON

Começa a chegar hoje, a longa lista de ditadores africanos. A maioria acompanhada por séquitos de seguranças, mulheres, amantes, e luxeiras várias. Para trás deixam a fome, a tortura, a violação dos direitos humanos e a consciência da sua incapacidade ou falta de vontade para arrancar os seus cidadãos da pobreza.
Portugal recebe-os engalanado, até arma tendas a alguns, habituados ao deserto, no chão de pedra dos fortes quinhentistas.
É a diplomacia global a aterrar no torrãozinho portuga.

5 de dezembro de 2007

ÁFRICA EM PORTUGUÊS

Em Moçambique, as campanhas dos telemóveis agitam-se. Este spot, que nasce de uma outra música, teve direito a sequelas e a contra-ataques da concorrência.
Vamos lá ver, afinal, quem é Patrão!

O LEVANTAR DO CHÃO

Comecei há uma semana ou duas a trabalhar num novo livro. Assim, devagar, umas folhas por dia, a tactear.
Uma pessoa próxima perguntava-me se seria um romance, se era o meu "próximo" livro. Encolhi os ombros porque não sabia responder. Estou apenas a ouvir as personagens, a testar os universo, as personagens dentro dos seus universos. É um trabalho "largo", como se percorresse as asas de um avião.
Mas uma coisa é passear nas asas outra é pô-lo no ar, com todo o seu peso.
Só os inconscientes atiram para o céu as toneladas de um romance sem motor.